

Biografía Virginia Satir
Adoecimento e a Passagem de Virginia Satir
Às vezes, mitos são criados sobre como uma pessoa faleceu — especialmente quando essa pessoa desfrutava do tipo de admiração generalizada que rodeava Virginia. Embora o que segue seja, até onde sabemos, um relato verdadeiro, pode haver algum mito já inserido nesta parte da história.
Uma de nossas maiores dificuldades é a transição desta vida para a morte. É um momento difícil tanto para quem parte quanto para quem fica. Com Virginia, não foi diferente. Essa fase foi um desafio para ela, para sua família, para os amigos e para as inúmeras pessoas que ela tocou ao longo da vida.
Virginia costumava dizer que viveria mais de 100 anos. Falava de como celebraria seu 75º aniversário e chegou a dizer que convidaria a Madre Teresa. Mas ela faleceu aos 72 anos de idade — cedo demais, tanto para ela quanto para os muitos que ficaram.
No final de maio de 1988, Virginia começou a não se sentir bem. Ela participou da Reunião Anual da Avanta, em junho, e naquela ocasião queixava-se de dores abdominais. Apesar do desconforto, seguiu com seus planos ocupados para o verão.
Em julho, foi para Crested Butte, Colorado, onde atuava como Diretora de Treinamento no Satir International Summer Institute / Process Community Módulos I e II. Lá, trabalhava com membros da Avanta que também atuavam como treinadores.
Durante o Módulo II do Process Community, suas dores abdominais se intensificaram a ponto de precisar ser levada ao hospital em Grand Junction. O diagnóstico inicial foi de um tumor pancreático, possivelmente cancerígeno.
Diante da gravidade, ela deixou Crested Butte e foi para Palo Alto, acompanhada por Diana Hall, membro da Avanta. Lá, foi internada no Stanford Medical Center. No hospital de Stanford, a notícia foi ainda mais séria: ela tinha câncer no pâncreas e também no fígado.
Mesmo doente, foi difícil para Virginia aceitar deixar Crested Butte — um lugar que ela amava profundamente e que, depois de quase dois meses por ano lá, havia se tornado uma espécie de segundo lar.
Ao saber do diagnóstico, Virginia compreendeu que não poderia retornar ao treinamento. Isso a preocupou muito, e ela imediatamente começou a organizar tudo para que o programa continuasse sem sua presença. Marilyn Peers, então presidente da Avanta (1987–1990), viajou até a Califórnia para estar com Virginia e discutir seus desejos sobre o futuro da organização.
As opções de tratamento incluíam quimioterapia e radioterapia, mas essas foram consideradas apenas paliativas. Virginia escolheu, em vez disso, seguir um tratamento nutricional e cuidar-se em casa. Alguns amigos foram até sua casa para acompanhá-la e cuidar dela 24 horas por dia. Outros ofereceram apoio através de orações, cartas, ligações e mensagens telefônicas.
O relato de Laura Dodson, intitulado “O Processo de Morte de uma Mulher Consciente — Virginia Satir”, oferece um testemunho sensível e profundo dos últimos dias de Virginia. Laura compartilha os medos, dores e também a força com que Virginia enfrentou sua partida.
Virginia tomou as rédeas de sua morte, como sempre fizera com sua vida.
Mesmo em casa, Virginia seguiu com o tratamento nutricional: dietas de limpeza, vitaminas e minerais. Mas no final de agosto, os vômitos e desconfortos constantes a levaram a interromper o tratamento. Ela tornou-se mais tranquila, falava menos, e ouvia mais música.
Laura lembra uma conversa marcante:
"O que você diria, Laura, se eu dissesse que quero fazer minha transição agora?"
Seguiu-se o silêncio. Era um momento profundo. Depois de alguns minutos, Laura respondeu:
"Virginia, se isso é o que você sente que é certo para você, eu vou te ajudar."
Virginia abriu os olhos e sorriu — aquele sorriso tão conhecido. Seus olhos brilharam:
"Tenho 72 anos. Tive uma boa vida."
Mais tarde, Laura perguntou:
"Como você se sente agora em relação à sua decisão?"
E Virginia, suavemente e com firmeza, respondeu:
"É a única coisa que me traz paz."
Virginia então compartilhou sua decisão com os familiares e amigos mais próximos. Ela também ditou uma mensagem para aqueles que não podiam estar fisicamente presentes:
“A todos os meus amigos, colegas e familiares: envio amor. Por favor, me apoiem em minha passagem para uma nova vida. Não tenho outra maneira de agradecer, senão esta: todos vocês tiveram um papel importante no desenvolvimento do meu amor. Como resultado, minha vida foi rica e plena. Deixo este mundo sentindo-me muito grata.”
— Virginia (Dodson, p. 185)
Nos últimos dias, Virginia parecia estar em paz. Dormia mais, falava menos e deixava a música preencher o ambiente.
No dia 9 de setembro de 1988, sua família enviou um bilhete para ela:
"Querida Ginny, estamos reunidos no Parque Flood, o mais perto de sua casa que conseguimos chegar.
É uma tarde linda, com os pássaros cantando nas árvores e seus esquilos pretos favoritos correndo pelo gramado.
Cada um de nós compartilhou lembranças queridas do que você nos ensinou. Algumas memórias nos fizeram rir, outras tocaram profundamente nossos corações.
Sua preocupação genuína com toda a humanidade será compartilhada por nós, sua família, e por muitos outros.
Nós lhe desejamos paz e contentamento em sua transição para uma missão ainda maior.
Nossa alegria e amor estarão com você para sempre."
Virginia faleceu no dia seguinte: 10 de setembro de 1988.
Laura recorda o momento assim:
“Quando ela deu seu último suspiro — suave e sem sofrimento — nos reunimos ao redor da cama, de mãos dadas.
Aquele sentimento de êxtase voltou, embora misturado com a dor da perda. Ela conseguiu sair do corpo!”
Seguindo um ritual judaico, Jonathan, um de seus médicos, quebrou um copo de vidro como símbolo de transição. Alguns falaram com ela. Outros cantaram suavemente.
Antes de morrer, Virginia pediu para ser cremada. Suas cinzas foram levadas para Mount Crested Butte, Colorado, onde ela havia comprado um jazigo. Lembro que ela chegou a perguntar a alguns de nós se queríamos comprar um espaço com ela — seria mais barato se comprássemos em três.
Ali, cercada por amigos e familiares, Virginia recebeu seu descanso final. Seu túmulo é simples, mas bonito — e continua sendo cuidado por seu amigo Allen Cox.
Naquele lugar, Virginia ainda nos lembra de seu amor pela natureza, pelas montanhas — e pelas pessoas.
Por:
Margarita M. Suarez
Diretora Executiva, Avanta (Atual "The Virginia Satir Global Network")
Dezembro de 1999